Sou formado em Desenho Industrial pela PUC–PR. Isso quer dizer, basicamente, que eu mexo com computadores. É sério, tem gente que fica putinho e “nossa design e mais q isso e tipografia e esquema de cores e tem o white space e semiotica nossa vc nao sabe o q fala e tem a bauhaus e alexandre wollner e helvetica e nossa david carson e tem q saber como lidar com pessoas etc” mas no final acaba sendo tudo sobre abrir o Photoshop e baixar uns brushes mutcho lokos ou, “mexer com computadores”.

E eu sinceramente não ligo pra isso, de verdade. Pra mim as boas histórias valem mais que os trabalhos que eu poderia fazer pra essas pessoas, ou o tempo que eu perderia tentando explicar “o valor do design” (ridículo).
Tem umas semanas que o porteiro do meu prédio me perguntou se eu lidava com computadores. Eu disse que sim. Ele disse que tinha uma moradora que estava tendo problemas e se eu podia ajudar. Eu disse que sim. Subi no apartamento da tal moradora. O que seguiu foi uma das melhores histórias.
O problema era, basicamente, que ela não conseguiu ligar o computador pois não tinha uma senha.
Vale acrescentar uma coisa: eu não entendo de computador, realmente. Não sei nem formatar e reinstalar um Windows, não sei mexer em registros nem nada. Eu só não tenho medo de computador, e gosto de ver onde essas histórias vão acabar.
Resolvi o problema usando um segredo não-revelado dos consertadores de computador: apertei o botão reset (aquele botão menor, que fica embaixo do grandão power).
(O outro segredo é: formatar. Sempre formatando resolve).
Aí depois que ela anotou isso num caderninho (“reset”), o computador religou. Levou uns 7 minutos, ela tem uns 3 anti-virus (não registrados) instalados e apareceu algo sobre um dll não ter sido reconhecido ou algo assim. E assim que apareceu o papel de parede (praia) ela “ligou a internet” (clicou no ícone do Internet Explorer). Ela queria ver se estava tudo funcionando. Depois de uns 3 minutos abriu o IE, mas não apareceu nada porque ela esqueceu que tinha que clicar no outro iconezinho (discador Brasil Telecom). 2010, ela usa internet discada. Fiquei sinceramente emocionado ao ouvir o modem discando, 2001 feelings. Perguntei porque ela não pega ADSL, aqui no prédio tem uma empresa que instala e sai baratinho.
‘Por que a senhora não pega ADSL? Tem uma empresa que instala e sai baratinho.’
‘Ih, qual é?’
‘Não sei bem, mas tem um cartaz lá na portaria.’
‘Ih será que é de um cara atarracadinho que a mulher trabalhava na TIM?’
‘Não sei de quem é, só vi o cartaz.’
‘Ah deve ser ele, não confio naquele homem, uma vez eu tava machucada e ele não segurou a porta do elevador e eu me machuquei e tive que ir pro SAMU, não confio naquele homem.’
‘Não sei quem é, sei que sai mais barato.’
‘Ah não, deve ser ele, não vou fazer.’
Ela disse que paga 80 reais eu acho, por uma internet discada.
Aí ela reabriu o IE, e demorou um tempão de novo. E ela falou:
‘Comprei esse computador há 7 anos lá em Maringá, comprei junto um laptop pro meu filho também, aquele era bom, devia ter ficado com ele, meu filho ingrato nunca mais falou comigo, mas isso é assim, filhos são assim mesmo, chega idade esquecem da mãe.’
Você deve ter notado como essa mulher reclama. Ela reclama de tudo. Reclamou de várias dores, que tem reumatismo (ou algo assim) e que não consegue ficar muito tempo em pé, e que a cadeira (banquinho) é muito desconfortável. E me contou sobre esse filho dela, e sobre um cara da loja de computadores que ela liga às vezes e que vai lá (“você quer sentar? O rapaz sempre vem aqui e senta naquele banquinho deixa eu pegar”).
Aí tudo estava funcionando direito, e ela perguntou quanto devia. Falei que nada, fiquei uns 10 minutos lá né.
Conserto computadores em troca de ideias pra posts.